Das margens do Rio Jaguaribe ao palco, histórias atravessam territórios, gerações e diferentes modos de narrar. No dia 24 de julho de 2026, Brejo Santo recebe o lançamento de “Mulheres que ensaboam palavras”, espetáculo criado a partir do processo de pesquisa do longa documental homônimo, atualmente em produção.
A montagem nasce do encontro com lavadeiras que vivem e trabalham às margens do Jaguaribe, no Centro-Sul do Ceará. São mulheres que, enquanto molham, esfregam, torcem e estendem roupas sob o sol do sertão, compartilham cantigas, lembranças, causos familiares e narrativas povoadas por seres fantásticos. Em suas vozes, histórias de vida se misturam ao imaginário das onças, serpentes, encantados, ventos e águas que constituem a paisagem cultural da região.
A pesquisa que deu origem ao filme e ao espetáculo percorreu os municípios de Orós, Iguatu, Jucás, Quixelô, Tarrafas e Antonina do Norte. Ao longo dessa travessia, artistas contadoras de histórias conviveram com as lavadeiras e escutaram seus repertórios, observando também os gestos, ritmos e relações que constituem a experiência cotidiana dessas mulheres à beira do rio.
Depois de recolhidas, as narrativas passaram por um processo cuidadoso de transposição da oralidade para a cena. As histórias foram organizadas, recriadas e novamente compartilhadas com as mulheres que originalmente as contaram, preservando o compromisso ético com suas memórias, seus modos de dizer e suas formas de compreender o mundo.
Em cena, o trabalho das lavadeiras se converte em linguagem artística. A cadência da roupa batida contra a pedra, o movimento das mãos dentro da água, as bacias, os tecidos, os cantos responsivos e a corporeidade das narradoras compõem uma dramaturgia marcada pela musicalidade. Rio e palco se aproximam, criando a impressão de que as artistas estão sobre as pedras do Jaguaribe e de que as lavadeiras também ocupam o teatro.
Mais do que transportar histórias de um ambiente para outro, “Mulheres que ensaboam palavras” propõe uma reflexão sobre quem guarda e transmite a memória de uma comunidade. O espetáculo reconhece as lavadeiras como trabalhadoras, narradoras e detentoras de um patrimônio cultural que continua vivo porque circula de boca em boca, transforma-se a cada reconto e encontra novas formas de chegar ao público.
A criação afasta-se da ideia de “resgatar” uma tradição supostamente perdida. As narrativas apresentadas não pertencem apenas ao passado: permanecem vivas nas relações cotidianas, na memória das mulheres e na prática de contar enquanto se trabalha. Ao levá-las ao palco, o projeto promove um encontro entre narradoras naturais e artistas da palavra, entre experiência comunitária e criação contemporânea.
O espetáculo também estabelece um diálogo direto com o longa documental “Mulheres que ensaboam palavras”, que acompanha o percurso da pesquisa, desde a escuta das lavadeiras até a elaboração da montagem. Filme e espetáculo constituem, assim, duas expressões de uma mesma jornada: seguir o caminho das palavras que nascem à beira d’água e deságuam na cena.
A apresentação em Brejo Santo convida o público a entrar nesse território de escuta, imaginação e memória. Uma experiência na qual a água guarda histórias, a pedra acompanha o canto e as palavras, ensaboadas pelas mãos das mulheres, resistem ao esquecimento.





