Parto em casa: conforto ou antiquado?

PORLícia Maia
Samara Simões, parteira da Roda Semear, sua filha Aurora e Ana Carolina Ferraz, que já teve um parto em casa e pretende ter seu segundo filho da mesma forma. Foto: Lícia Maia.
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Quando se pensa em ter uma criança a primeira imagem do local a ir na hora do parto é o hospital, e o modo mais rápido para as mulheres que tem medo das dores é a cesária. Mas você já pensou que o conforto do seu lar pode ser um bom local para ter sua criança? Essa ideia te parece antiquada? Pois conheça agora a prática do parto em casa no Cariri.

Ter crianças em casa lembra as histórias das avós, num tempo onde hospitais e ajuda médica no interior era coisa difícil, mas hoje em dia, na contramão do pensamento de modernidade aliado à tecnologia hospitalar vêm o parto normal, feito no lugar onde a mulher se sente mais confortável, no próprio lar.

Com o intuito de avivar a memória das parteiras antigas e fazer um trabalho diferenciado com mulheres e casais grávidos, conhecendo mais profundamente o que é o parto e o que esse processo, feito de forma natural, pode significar tanto para a mãe como para o bebê, a Roda Semear, localizada no bairro Lagoa Seca, em Juazeiro do Norte faz, todas as terças-feiras, uma roda de conversa com todo o público interessado nesse assunto, grávidas ou não.

Segundo Samara Simões, parteira há oito anos e chefe da equipe de parto da Roda Semear, o parto normal e em casa traz benefícios físicos e emocionais. “No hospital você é só mais uma”, diz ela, “já em casa você é única”. Com uma equipe de duas a três doulas e uma parteira para atender apenas uma gestante à domicílio. “É uma forma de vivenciar o parto de maneira amorosa, respeitosa e consciente”, diz a parteira.

Ela fala que pode usar de artifícios como massagem, compressas quentes, rebozo e bola suíça para ajudar no processo, mas evita ao máximo intervenções. Samara conta que, caso a mãe e a criança precisem de uma intervenção não natural, são encaminhadas ao hospital. Mesmo tendo de recorrer ao reduto hospitalar, uma doula acompanha a gestante nesse processo.

Vale salientar que o trabalho das doulas e das parteiras é diferente. A doula é uma acompanhante da grávida, desde a gestação até depois do parto. Ela presta assistência física e emocional à gestante, auxiliando no trabalho da parteira, com foco no bem-estar da mulher. Já a parteira é quem está a frente do processo, fazendo avaliações físicas da mãe e do bebê, e sendo a primeira a receber a criança quando ela nasce.

Samara diz que a única “manobra” da medicina hospitalar convencional que usa nos partos é a anestesia local para a costura do períneo, quando ele rasga-se naturalmente. “A gente estimula a autonomia da mulher”, diz ela a respeito do trabalho de parto.

Ela ainda explica que apesar de a maioria das mulheres poderem ter seus filho em casa, o critério é que seja uma gestação de baixo risco. O pré-natal de aspecto físico e emocional da mulher é feito pela equipe chefeada por Samara, o que não dispensa o pré-natal convencional, feito por médicos.

Especialistas estimam que a cesariana é necessária em apenas 10% a 15% dos partos, devido a complicações específicas, mas os dados mundiais dizem o contrário. A taxa de cesarianas realizadas no mundo quase dobrou entre 2000 e 2015, passando de 12% para 21% dos partos. Já no Brasil, a taxa chegou a 56,4% em 2015, o que indica que mais da metade das mulheres que tiveram filhos nesse ano foram para a mesa de cirurgia sem motivos.

Comadre

A ralação na Roda Semear é de compadrio. Historicamente as parteiras viram automaticamente madrinhas das crianças que trazem ao mundo. Samara explica que essa relação pode até ser de “mãe” em alguns lugares, e que ela se sente mesmo uma mãe para as crianças que já fez o parto, assim como um grande apoio, um laço forte com as mulheres que passam por suas mãos. “Eu não tenho ciúmes nenhum”, afirma Ana Carolina Feraz, mãe de segunda viagem no parto normal, quando perguntada sobre o fato de seu filho também sem “filho” de Samara, considerando esta relação da parteira com as crianças.

Dói muito, né?

Quando perguntadas sobre a dor do parto normal, as mulheres da Roda Semear afirmam que apesar de doer sim, esse não deve ser o único pensamento. Algumas delas deram novos significados a esta “dor”. “Não é uma dor ruim, é a de trazer meu filho pro mundo, não senti nada negativo”, afirma Carol acerta do nascimento do seu primeiro filho.

Já Milena Mesquita diz que “o medo da dor faz com que você não queira senti-la”, e isso toma a dimensão de um bloqueio em você, como se necessariamente dores fossem ruins, e então você se dopa com remédios e práticas que só adiam a sua dor para mais tarde. Milena conta que passou mais de uma década para descobrir que tinha uma doença porque apenas tomava remédios para não sentir as dores, que eram certamente o indicativo de que algo não estava certo.

Já no parto normal as dores são justamente um bom indicativo, o de que a criança está perto de vir. As mulheres dividem a experiência de que cesárias também doem, mas de maneira diferente, e até a longo prazo. “Eu não tenho medo nenhum da dor do parto”, completa Milena. Carol diz que a opção dos médicos é “um parto com dor ou sem dor”, e que isso muitas vezes não procede.

Violência Obstétrica

Milena e Thiago Silveira, seu companheiro, levantam que, na medicina convencional, muitas vezes não é dada a opção do parto normal. “Quando a Milena perguntou ao médico como ia ser o parto ele já falou todo o plano da cesária em um hospital”, como se só houvesse aquele opção, daquele jeito. Milena conta que o hospital era justamento o único que ela não queria ir, por já ter passado por três cirurgias lá, mas o obstetra não deu outra opção, “ele disse que tinha que ser la, que era o local que tinha equipamentos caso eu precisasse de algo mais durante meu parto”, disse ela.

O parto normal é também procurado por mulheres mais bem informadas, que perceberam, durante o pré natal, que o médico ou médica encaminharia pra uma cesária ou parto normal com intervenções desnecessárias, conta Samara.

A nova recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre nascimentos e partos, emitida no dia 15 de fevereiro de 2018, vem pedir a eliminação da referência de dilatação cervical de um centímetro por hora e enfatiza que uma taxa mais lenta por si só não deve servir de indicação para acelerar o parto.

Perante esta velha referência, muitas vezes as mulheres recebem oxitocina para acelerar o trabalho de parto ou acabam por ser encaminhadas para cesarianas ou para trabalhos de parto com fórceps.

O Renascimento do Parto

O documentário “O Renascimento de Parto”, de produção brasileira e disponível no streaming Netflix, mostra depoimentos de mães que passaram por experiências de cesária e parto normal, obstetras, parteiras e especialistas.

O filme aponta os diversos motivos que teriam levado a um excesso de cesarianas. Para a obstetriz Ana Cristina Duarte quase tudo hoje em dia se tornou motivo para recomendar cesárea, muitas vezes sem necessidade. “Pressão alta, cordão umbilical enrolado no pescoço, falta de dilatação, bebê grande ou pequeno demais, mãe acima de 30 anos ou jovens demais, gorda ou magra demais, sedentária, diabética. Também dizem que o parto normal dói muito e que a mulher pode ficar larga”, diz a médica.

O filme trata também de intervenções desnecessárias no bebê logo após o nascimento, a falta de contato dos filhos com as mães logo após o parto, sendo levados assim que vem ao mundo nos dois tipos de partos e o aumento de crianças prematuras ou com complicações depois de uma cesárea, ligadas ao fato de que o bebê ainda não estava “pronto” para nascer.