Feminicídios e tentativas de assassinato disparam no Brasil em 2018

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O ano passado foi atroz para as mulheres. Os crimes de feminicídio e de tentativa de assassinato dispararam no país. Em alguns casos, mais do que dobraram. E 2019 começou ainda mais violento. Os números mostram que a covardia cresce no Brasil, reflexo, segundo especialistas, de uma cultura de tolerância e banalização da agressão contra a mulher.

Dados inéditos revelam que 92.323 denúncias foram registradas e encaminhadas pelo Ligue 180, canal do agora Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos — 25,3% a mais do que no ano anterior. Em 2017, foram 73.669. Para se ter dimensão da barbárie, 391 mulheres foram agredidas por dia em dezembro, mês no qual 12.123 se tornaram vítimas de todo o tipo de violência. Em relação ao mesmo período de 2017, o número mais que dobrou. À época, 6.024 denunciaram abusos.

As 26 páginas do balanço comparativo do Ligue 180 escancaram um cenário que exige atenção. O assassinato de mulheres também cresceu. O crime aumentou 63% passando de 24 assassinatos entre julho e dezembro de 2017, para 39 no mesmo período de 2018. As tentativas de feminicídio saltaram de 2.749 para 4.018 no mesmo recorte de tempo: alta de 46%. Apesar de assustador, o dado é considerado subnotificado, porque nem todos os casos são declarados.

Brutalidade

O canal de denúncia passou a registrar feminicídios desde julho de 2017. Para a violação existem duas tipificações: o feminicídio, quando uma terceira pessoa informa sobre uma mulher vítima do crime; e a tentativa de feminicídio, na qual a vítima ou outra pessoa informam a agressão. Contudo, nem todos os casos são denunciados pelo canal. Em 2017, por exemplo, o Anuário de Segurança Pública registrou 946 feminicídios.

Para especialistas e associações de defesa da mulher, quando os casos são avaliados distintamente, é lançada luz a outra perspectiva: a brutalidade com que a violência tem se disseminado pelos lares brasileiros. Maridos e ex-companheiros são os principais algozes e agem com, cada vez mais, crueldade.

A fundadora da Associação Brasileira de Defesa da Mulher, da Infância e da Juventude, Dalila Figueiredo, é categórica. “Estamos diante de uma situação gravíssima”, alertou. Para ela, a questão deve ser trabalhada nas escolas. “Precisamos educar para uma vida livre de violência. Eliminar a ideia de que a mulher se torna um objeto e é propriedade de um homem. Para isso, é preciso desenvolver outra consciência de masculinidade, trabalhar no adolescente o comportamento agressivo. Somente assim, a cultura começará a mudar. Às vezes, o homem reproduz aquilo que ele assistiu em casa”, explicou.

Dalila reconhece que romper o ciclo da violência é difícil. “As mulheres estão morrendo com a medida protetiva dentro da bolsa. Temos de reabilitar o agressor. Porque, se ele não se transformar, vai mudar de casa e de esposa e agredir novamente. Os serviços devem ser capazes de dar resposta a quem precisa”, ressaltou.

Tolerância

De acordo com o anuário brasileiro de segurança pública, existem apenas 443 delegacias especializadas no atendimento às mulheres em situação de violência em todo o país. Isso significa que menos de 10% dos 5.570 municípios do país, além do DF, contam com o serviço.

Para Raquel Marques, presidente da Associação Artemis, centro cultural feminista, o aumento dos casos é reflexo da tolerância da sociedade. “É preocupante a validação da agressão por meio de discursos que não são inócuos. Há requinte do ódio. Chama a atenção a crueldade dos crimes”, destacou.

A militante não acredita que o país esteja preparado para enfrentar essa situação. “As medidas protetivas não surtem efeitos. O essencial é a mudança cultural. É preciso uma reflexão sobre comportamento. Vemos que a mudança parte da cultura, da mudança de valores e da intolerância da sociedade com esse tipo de crime. Justamente o que está afrouxando no Brasil”, criticou.

O Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher destacou a banalização das agressões contra a mulher. “Um dos fatores que contribuem para isso é insuficiência da cultura que assuma, efetivamente, a necessidade de mudar os padrões machistas e patriarcais que são oferecidos à mulher”, esclareceu a coordenadora da entidade, Silvia Pimentel.

“Muitas vezes, o gatilho da violência é a mulher não querer mais o relacionamento. Por que, quando o inverso acontece, não temos esses casos?”, questionou. “Neste momento, a nossa preocupação é que está se concretizando uma política de ênfase da família tradicional. A mulher tem direito à autonomia”, avaliou.

Silvia classificou o aumento das denúncias como “assustador”. “Existe uma cultura que banaliza a violência contra a mulher. Isso reforça a brutalidade dos casos. Mesmo com uma das melhores leis do mundo, temos aumento expressivo dos crimes. Precisamos construir uma sociedade civilizada com diálogo para mitigar a violência”, defendeu.

Abusos

Veja as principais agressões registradas pelo Ligue 180 em 2018
Violência física 30.918
Violência psicológica 23.937
Violência doméstica e familiar 15.803
Tentativa de feminicídio 7.036
Violência sexual 4.491
Violência moral 3.960

Para denunciar

O Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, é o serviço oferecido pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A ligação é gratuita e confidencial. Esse canal de denúncia funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 países. Além de registrar denúncias de violações contra mulheres, encaminhá-las aos órgãos competentes e realizar seu monitoramento, o Ligue 180 também dissemina informações sobre direitos da mulher, amparo legal e a rede de atendimento e acolhimento.