A frágil memória da aviação no Cariri

PORRoberto Júnior
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Reduzir distâncias sempre foi um grande desafio à humanidade. A máquina a vapor possibilitou maiores deslocamentos em menos tempo nos barcos e navios a vapor. O telégrafo, o rádio, o telefone, e outros tantos inventos, marcaram de forma indelével nosso percurso histórico, mas creio que pouquíssimos tiveram tanto impacto quanto o avião.

O aprimoramento rápido e constante da aviação durante as primeiras décadas do século passado possibilitou o encurtamento de distâncias enorme. O avião executou as mais diversas funções, e foi um dos grandes responsáveis pelo aceleramento do transporte de pessoas, produtos e informações, uma tríade que o tornou estratégico e objeto de poder governamental, vide a corrida tecnológica e de estabelecimento de frotas em que ele sempre esteve envolvido, e em protagonismo.

No Brasil, as primeiras iniciativas do ainda jovem governo republicano em prol da introdução e melhoramentos da aviação ocorreram ainda na década de 1910, e já na década de 1920, o país passou a possuir serviços regulares de transporte de cargas e passageiros. No Cariri, as operações do Correio Aéreo Militar, posteriormente Correio Aéreo Nacional, um dos mais importantes instrumentos de unidade nacional, tiveram início em 1933, e em 1950 a Aeronorte iniciou suas operações comerciais em Juazeiro do Norte.
O Brigadeiro Macedo, figura polêmica, mas de destaque nacional. Samuel Wagner, o aviador de carreira meteórica que plantou as bases em nossa cidade, e outros tantos homens e mulheres que labutaram pela causa, são hoje lembrados por outros feitos, isso quando o são.

É interessante como os esforços pela preservação da memória de setores ligados diretamente a atividades comerciais ou industriais são escassos. Enquanto consigo ampla adesão pela preservação de imóveis residenciais em nossa região, recebo olhares tortos quando trato do patrimônio edificado industrial e comercial, como se não fossem eles também depoentes do nosso processo de formação enquanto sociedade. As atividades práticas e que visam somente o lucro tendem a não prezar pela sustentabilidade neste sentido, e de tão intrínseca, essa mentalidade tem poder suficiente para tentar deslegitimar argumentos contrários.

Sendo assim, pouco atrai o fato de que a praça que um dia homenageou Samuel Wagner tenha sido completamente desfigurada e transformada em estacionamento pela prefeitura municipal em outra gestão, muito embora a atual não tenha feito qualquer intervenção reparatória. Este e outros fatores influenciaram a família a desistir de colocar um busto do aviador. Em Crato, o Brigadeiro Macedo segue apenas como um vulto pouco lembrado. Mais recentemente, a INFRAERO, visando manter a normalidade e segurança de suas operações, emparedou as portas e janelas do antigo terminal, o que é reversível e compreensível, intragável porém foi a autorização para construção de hangar imediatamente atrás da construção histórica, reduzindo absurdamente as possibilidades de uso.

E o acervo documental? Melhor nem falar. Cada setor de nossa sociedade merece atenção e direito a sua memória, e a aviação não é diferente, sendo importante as medidas no tocante de sua preservação. O antigo terminal poderia ser utilizado como memorial ou museu. O acervo documental anexado ao arquivo público. A praça remodelada parcialmente para fazer jus ao homenageado. Nós, usufruirmos de mais esse nicho de conhecimento histórico tão pouco explorado em nossa região. Fica o problema a ser analisado, debatido, fomentado.