Sobreviventes do ebola criam anticorpos especiais contra o vírus

Foto: EFE/Diego Pérez Cabeza
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Pesquisa feita por cientistas da Espanha constatou que os sobreviventes do ebola geram anticorpos “em pequena quantidade”, denominados “unicórnios”, que são capazes de identificar as partes vulneráveis do vírus e neutralizá-lo, um primeiro passo para a obtenção de uma vacina eficaz para todas as suas variantes.

Os pesquisadores do Serviço de Microbiologia e do Instituto de Pesquisa do Hospital Universitário 12 de Outubro em Madri são os responsáveis pela descoberta depois que investigaram amostras de três pacientes infectados pelo vírus que foram tratados na Espanha.

O pesquisador Rafael Delgado explicou em entrevista à imprensa que o estudo faz parte de uma nova estratégia chamada “vacinologia reversa” para identificar antígenos vacinais contra alguns agentes, porque estes não existem, como no caso do HIV, ou porque não são 100% eficientes, como na gripe.

Esta estratégia consiste em descobrir quais são as áreas mais vulneráveis dos vírus, que geralmente estão na superfície – nas proteínas que o envolvem – e, a partir daí, conseguir vacinas que sejam capazes de induzir os anticorpos a identificarem essas áreas.

Neste caso, os pesquisadores demonstraram que em pacientes sobreviventes de ebola existem anticorpos especiais em proporção muito pequena, mas que reconhecem essas áreas escondidas e mais vulneráveis do vírus, que estão presentes em todas as cinco variedades do ebola.

“Conseguimos demonstrar que nesses pacientes existem anticorpos em pequena quantidade, que têm propriedades muito especiais e são muito efetivos porque estão dirigidos para áreas absolutamente críticas para o vírus, e têm uma eficácia muito grande para bloqueá-lo”, disse Delgado.

Trata-se da primeira vez em que esses anticorpos “unicórnio” são detectados em amostras reais de pacientes que foram curados da infecção, já que foram identificados anteriormente em clones criados em laboratório.

“Esses anticorpos, se estivessem em quantidades mais altas, seguramente seriam protetores frente a todas as variedades de vírus ebola. O desafio seria induzir grandes quantidades desses anticorpos tão especiais mediante uma vacina”, explicou Delgado.

Essa vacina, segundo ressaltou o pesquisador, estaria modificada para “evidenciar” essas partes que são mais vulneráveis na superfície do vírus. “Essa seria a aplicação mais importante”, afirmou Delgado.

Concretamente, se conseguiria induzir uma maior produção dos anticorpos “unicórnio” através da modificação do revestimento do vírus em laboratório.

Delgado afirmou que a expectativa é conseguir uma vacina eficaz, mas que os pesquisadores ainda estão “nos primeiros passos”, pois é preciso primeiro realizar pesquisas em ratos, e estimou que os resultados podem ficar prontos em um ano.

De maneira similar, a estratégia está sendo utilizada também para avançar no desenvolvimento de uma vacina universal com uma eficácia mais prolongada no tempo para o vírus da gripe, e para outra contra o HIV, já que se demonstrou, segundo Delgado, que existem anticorpos igualmente protetores que reconhecem as regiões mais vulneráveis e escondidas do vírus.

“Induzir a produção desses anticorpos mediante vacinas é agora o desafio da vacinologia no futuro”, insistiu o pesquisador.

A maioria das vacinas funcionam por sua capacidade de induzir a produção de anticorpos que reconhecem e neutralizam o revestimento na superfície dos vírus, que é o caso de algumas “muito eficazes” como as de hepatite B e sarampo.

No entanto, no caso do ebola, da gripe e do HIV, um de seus inconvenientes é a variabilidade e a capacidade destes vírus para “esconder” as áreas mais vulneráveis de seu revestimento.

A pesquisa, realizada em colaboração com a Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital de La Paz, em Madri, foi publicada em um suplemento especial da revista científica The Journal of Infectius Diseases.