O avanço da neurociência ampliou as possibilidades de compreender como os ambientes afetam as pessoas. Também criou o risco de transformar pesquisas em regras prontas: se determinada cor provoca uma reação, por exemplo, deveria funcionar da mesma maneira em qualquer projeto.
Para a arquiteta especialista em neuroarquitetura, Gabi Sartori, cofundadora da NEUROARQ® Academy, esse raciocínio simplifica um processo complexo. O cérebro não recebe o ambiente sozinho. Ele depende das informações captadas pelo corpo e pelos sentidos, interpretadas a partir da história e das condições de cada pessoa.
“Não podemos reduzir a experiência humana apenas ao cérebro. Ele faz parte de um sistema complexo e precisa das informações que o corpo recebe do ambiente para decodificar aquilo que estamos vivendo”, afirma Gabi.
Para explicar essa integração, a arquiteta recorre à fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty, segundo a qual as pessoas percebem o mundo pelo conjunto do corpo e dos sentidos. A mesma compreensão aparece em Juhani Pallasmaa. Em Os olhos da pele, o arquiteto finlandês defende uma arquitetura indissociável do corpo e de seu movimento no espaço.
“Um projeto multissensorial não é um espaço com excesso de cores, sons, texturas e aromas. Não precisamos estimular tudo o tempo todo. Buscamos integração: estímulos coerentes com o contexto, com as pessoas e com aquilo que elas precisam viver ali”, explica.
Gabi traduz essa reflexão por meio de uma experiência pessoal. Ao ver o filho ganhar um pogobol, brinquedo que havia usado na infância, sentiu o corpo antecipar os movimentos. Mesmo depois de muitos anos, subiu no objeto e voltou a pular. A habilidade, a postura e as sensações permaneciam registradas.
Uma crise corporal e sensorial
Pallasmaa também ajuda a contextualizar um problema que antecede os smartphones. O autor critica a predominância da visão na arquitetura e levanta a possibilidade de que a alienação, o isolamento e a solidão do mundo tecnológico estejam relacionados ao enfraquecimento dos sentidos.
A hiperconexão ampliou esse cenário. Em A geração ansiosa, o psicólogo social Jonathan Haidt discute como a infância vem deixando as brincadeiras e experiências concretas para se concentrar nas telas. Para Gabi, o problema alcança também os adultos, ligados a dispositivos que oferecem informação e recompensas constantes.
“Nós vivemos uma crise de experiência corporal e sensorial. A infância está sendo muito vivida na tela, e não no mundo concreto. Quando não usamos o corpo e os sentidos, perdemos experiências mais ricas e completas”, observa.
A resposta não está em preencher os ambientes com cores, sons, aromas e texturas. O excesso pode sobrecarregar o sistema nervoso, especialmente em pessoas mais sensíveis. Projetar de maneira multissensorial significa buscar equilíbrio e entender quais estímulos fazem sentido para cada usuário e atividade.
Projetar exige integração
Para chegar a esse equilíbrio, Gabi defende uma abordagem que reúna neurociência, psicologia ambiental, biologia, filosofia e outras áreas. As pesquisas oferecem evidências, mas precisam ser interpretadas de acordo com o contexto e as necessidades de quem ocupará o espaço.
A inteligência artificial pode apoiar o projeto, mas não substitui o conhecimento sobre o cliente. Sem essa investigação, não é possível identificar quais estímulos fazem sentido para aquela pessoa ou o que precisa ser trabalhado no ambiente.
“Não basta ter um checklist. Podemos ter um método que guia e orienta, mas cada projeto é único. É preciso entender para quem estamos projetando e adaptar o processo a essa realidade”, explica.
O ambiente como ferramenta de desabituação
Para Gabi, o projeto também pode interromper o modo automático com que as pessoas atravessam os espaços. Ela chama esse movimento de desabituação: criar condições para que o usuário volte a perceber o ambiente, reconheça a própria presença e estabeleça novas relações com aquilo que o cerca.
Isso pode acontecer por meio de uma mudança de luz, de uma textura que convida ao toque, de um percurso que desacelera ou de um espaço que favorece encontros. O valor não está na quantidade de estímulos, mas na capacidade de devolver significado à experiência cotidiana.
“Um ambiente humanizado não precisa impressionar o tempo todo. Ele precisa nos reconectar com o corpo, com os sentidos, com outras pessoas e com a nossa própria história. Quando o projeto consegue fazer isso, deixa de ser cenário e volta a ser um lugar vivido”, conclui Gabi.




